Evite os “verbos de pensamento”: o conselho de Chuck Palahniuk para novos escritores

Há alguns anos, eu esbarrei nesse ótimo conselho de Chuck Palahniunk, um escritor que por acaso eu admiro pacas, mas tinha me esquecido completamente dele no fundo do meu arquivo de roubos. O interessante é que, ao contrário de muitas outras dicas para escritores que a gente vê por aí, esse artigo não é sobre questões metafísicas ou de bloqueio ou conselhos abstratos que a gente gosta de ler mas não sabe ao certo como seguir. É uma dica prática, do tipo “pegue papel e caneta e comece agora” e eu acredito que, aplicando-a na nossa escrita, realmente pode nos ajudar a lapidar nosso estilo.

Em seis segundos, você vai me odiar. Mas em seis meses, será um escritor melhor. 

De agora em diante – pelo menos pelo próximo meio ano – você não poderá usar “verbos de pensamento”, incluindo: pensar, saber, entender, perceber, acreditar, querer, lembrar, imaginar, desejar e centenas de outros que você ama. 

Essa lista também deve incluir: amar e odiar. E pode se estender a ser e ter, mas nós vamos chegar nesse mais tarde. 

Até mais ou menos o natal, você não poderá escrever: “Kenny se perguntou se Mônica não gostava que ele saísse à noite…” 

Em vez disso, você terá de desmembrar isso em algo como: “Nas manhãs que se seguiam às noites em que Kenny estava fora depois do último ônibus, quando ele teria que pegar uma carona ou pagar por um carro para chegar em casa e encontrar Mônica fingindo dormir – porque ela nunca dormia daquela forma tão tranquila – naquelas manhãs, ela sempre colocava apenas sua xícara de café no microondas. Nunca a dele. 

Em vez de fazer seus personagens saberem qualquer coisa, você deve agora apresentar detalhes que permitam que o leitor os conheça. Em vez de fazer seus personagens quererem alguma coisa, você deve agora descrever a coisa para que seus leitores passem a querê-la também. 

Em vez de dizer: “Adam sabia que Gwen gostava dele.”, você terá que dizer: “No intervalo entre as aulas, Gwen se encostava no armário de Adam quando ele se aproximava para abrí-lo. Ela rolava os olhos e partia, deixando uma marca negra no metal, mas também seu perfume. O cadeado ainda estava quente pelo contato com suas nádegas. E, no próximo intervalo, Gwen estaria encostada ali, outra vez.” 

Para resumir, pare de utilizar atalhos. Apenas detalhes sensoriais específicos: ações, cheiros, gostos, sons e sensações. 

Normalmente, os escritores usam esses “verbos de pensamento” no início dos parágrafos (dessa forma, você pode chamá-los de “afirmação de tese”, e eu vou protestar contra eles mais tarde). De certo modo, eles afirmam a intenção daquele parágrafo. E, o que se segue, ilustra essa intenção. 

Por exemplo: “Brenda sabia que ela nunca cumpriria o prazo. O trânsito estava terrível desde a ponte, passadas as primeiras oito ou nove saídas. A bateria do celular havia se esgotado. Em casa, os cachorros precisariam sair para um passeio, caso contrário haveria uma grande bagunça para limpar depois. Além disso, ela prometeu que aguaria as plantas para o vizinho…” 

Você percebe como essa “afirmação de tese” tira o brilho do que se segue? Não faça isso. 

Se não tiver jeito, corte a sentença de abertura e coloque-a depois de todas as outras. Melhor ainda, mude para: “Brenda nunca cumpriria o prazo.” 

Pensar é abstrato. Saber e acreditar são intangíveis. Sua história sempre vai ser mais forte se você mostrar apenas as ações físicas e os detalhes dos seus personagens e permitir que seu leitor pense e saiba. E ame e odeie. 

Não diga ao leitor: “Lisa odiava Tom.”

Em vez disso, construa seu caso como um advogado na corte, detalhe por detalhe. 

Apresente cada evidência. Por exemplo: “Durante a chamada, no instante logo após a professora dizer o nome de Tom, naquele momento antes que ele respondesse, bem naquele instante, Lisa sussurrava “seu merda” justo quando Tom respondia “Presente”. 

Um dos erros mais comuns de escritores iniciantes é deixar seus personagens desacompanhados. Ao escrever,  você pode estar sozinhos. Ao ler, sua audiência vai estar sozinha. Mas seus personagens devem passar muito pouco tempo sozinhos. Porque um personagem desacompanhado começa a pensar, a se preocupar ou a se perguntar.

Por exemplo: “Enquanto esperava pelo ônibus, Mark começou a se perguntar quanto tempo a viagem tomaria…”. 

Uma construção melhor seira: “A programação dizia que o ônibus chegaria ao meio dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram 11:57. Dali dava para ver até o fim da rua, até o shopping, e ele não via nenhum ônibus vindo. Sem dúvidas, o motorista estava parado em algum retorno no fim da linha, tirando uma soneca. O motorista estava dormindo e Mark estava atrasado. Ou pior, o motorista estava bebendo e, quando ele parasse ali, bêbado, cobraria setenta e cinco centavos por uma morte horrível em um acidente de trânsito.” 

Um personagem sozinho deve mergulhar em fantasia em memória, mas mesmo nesses casos você não pode usar “verbos de pensamento” ou qualquer um de seus parentes abstratos. 

Ah, e você não pode se esquecer dos verbos lembrar e esquecer. Nada de frases como “Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar seu cabelo”.

Em vez disso, diga: “Quando estavam no segundo ano da faculdade, Nelson costumava arrumar o cabelo dela com escovadas suaves e longas”. 

Outra vez: desmembre. Não utilize atalhos. 

Melhor ainda, coloque o seu personagem junto com outro personagem rapidamente. Coloque-os juntos e deixe a ação começar. Deixe a ação e as palavras mostrarem seus pensamentos. Saia da cabeça deles. 

E, enquanto estiver evitando os “verbos de pensamento”, seja muito cauteloso ao utilizar os verbos ser e estar. 

Por exemplo:

“Os olhos de Ann eram azuis” ou “Ana tinha olhos azuis”

versus

“Ann tossiu e sacudiu uma mão em frente seu rosto, espantando a fumaça de cigarro de seus olhos, olhos azuis, antes de sorrir…” 

Em vez de usar os sem graça “ser” e “ter”, tente enterrar esses detalhes dos personagens em suas ações ou gestos. Para simplificar, isso é mostrar sua história, em vez de contar. 

E daqui para frente, depois que você aprender a desmembrar seus personagens, você vai odiar os escritores preguiçosos que se contentam com: “Jim sentou-se ao lado de seu telefone, perguntando-se se Amanda não ligaria.” 

Por favor. Por enquanto, me odeie com todas as suas forças, mas não use “verbos de pensamento”. Depois do natal, sinta-se livre, mas eu apostaria dinheiro que você não vai voltar atrás. 

(…)

Como tarefa do mês, vasculhe suas escritas e circule cada “verbo de pensamento” que você encontrar. Depois, encontre uma forma de eliminá-los. Mate-os através do desmembramento. 

Em seguida, vasculhe algum livro de ficção e faça o mesmo. Seja impiedoso. 

“Marty imaginou um peixe saltando sob a luz da lua…” 

“Nancy lembrou-se do sabor do vinho…” 

“Larry sabia que ele era um homem morto…” 

Encontre-os. Depois, descubra um jeito de reescrevê-los. Torne-os mais fortes.

 

– Chuck Palahniuk

Mais sobre Chuck Palahniuk em seu site oficial.

Os livros dele estão disponíveis na Amazon (link afiliado).

72 Comments

  1. Olá Natália!
    Essa dica que trouxeste é muito válida. Aliás, todas as dicas são sempre válidas.
    Não sei porque as pessoas tem essa necessidade de julgar/desmerecer o trabalho de outro só porque não concordam ou por não lhe agradar totalmente, mas o fato é que estilos (de escrita) existem muitos, cada um irá adaptar-se de uma maneira.
    Obrigada por compartilhar tanto conhecimento conosco!

  2. Luciano Martins Costa

    18 de maio de 2016 at 17:17

    Pessoal, trata-se de um escritor comercial, cujo grande interesse não é Literatura, mas obter contratos para roteiros de séries da TV.
    O que ele diz é pura bobagem. Os grandes romances dedicam espaços nobres para a descrição do fluxo de consciência dos personagens e eventualmente do narrador.
    O filósofo Franklin Leopoldo e Silva apresentou há poucos meses no Centro de Estudos Maria Antonia, em São Paulo, um curso fabuloso sobre esse tema, tratando especificamente de Virginia Woolf.
    Os romances imortais da Literatura internacional se caracterizam justamente pelo fluxo de consciência, não pela descrição de ação e diálogos.
    A literatura brasileira não se renova exatamente porque as editoras estimulam esse mercado de banalidades.

    • Que o Chuck Palahniuk é um escritor comercial, não há dúvida, mas ele não está propondo um estilo de escrita e sim um exercício. Um livro inteiro escrito somente baseado no fluxo de consciência seria extremamente monótono, o ideal seria mesclar estilos. Um escritor que faz isso muito bem é o Ian McEwan, em Reparação ele se utiliza das duas técnicas e cria um equilíbrio na narrativa.

  3. Olha esse lance! O cara manda dicas aos novos escritores, mas nao sabe escrever.
    Conte quantos termos temporais ele usa na mesma frase>

    “Apresente cada evidência. Por exemplo: “Durante a chamada, no instante logo após a professora dizer o nome de Tom, naquele momento antes que ele respondesse, bem naquele instante, Lisa sussurrava “seu merda” justo quando Tom respondia “Presente”. ”

    Durante, no intante, logo, após, naquele momento antes, naquele instante, justo quanto, presente.
    Credoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo. Vai estudar meu filho! Antes de dar a dica por outros! Aprenda a escrever você primeiro.
    beijas.

    • Marylin, o texto original é em inglês. A tradução livre foi feita por mim. Como não sou tradutora, pode ser que não tenha ficado lá essas coisas, mas acho que dá para entender o recado. Até porque o inglês é uma língua bem mais repetitiva que o português. Acho que antes de sair falando que alguém não sabe escrever você deveria conhecer a obra dele. Ele tem livros incríveis.

      Abraços

    • Acho que ele escreve bem. A Natália fez um bom trabalho na tradução. Só acho que a dica “para escritores iniciantes” ficou com um ar esnobe que atrai reações negativas. Esse formato de narrativa não é novo, não foi ele quem inventou. É antigo pacas. É uma forma de vc narrar criando imagens para o leitor – simplificando o que ele disse. Ao invés do autor ser “rádio”, é “cinema”. Como já foi comentado aqui por outra pessoa, é uma forma de escrever facilitando a vida de quem vai produzir o filme depois. Muitos escritores cults se negam a usar esse formato – seria mímese? – por achar que cabe ao leitor construir as cenas. Vai de cada um na hora de escrever, do resultado que quer buscar. Nada impede que o autor use um pouco dessa forma, um pouco de outra. Cada momento, numa trama, pode exigir uma narrativa diferente.

    • Salmão Bronzeado No Shimeji

      14 de fevereiro de 2016 at 21:16

      Esqueça o cidadão.

      Em pleno 2016, já deu de bancar o psicólogo, mas… assim como apostas em não usarmos mais os verbos de pensamento pós descoberta (e pós natal, claro), eu apostaria no Ego como o motivo da não abstração de Marilyn ao seu maravilhoso texto, Natália. A preocupação em não ser contrariado (estou usando ser, merda) fala mais alto que a habilidade de abstração e aplicação. Berlim passou, junto dele o século XX e todos seus péssimos antecedentes, mas creio ainda estarmos em tempos de muros. Não sei mais se podemos nos ater à água que Bruce Lee tanto falava, mas sim aderirmos ao vento.
      Sou fã do Chuck e nunca havia me deparado com este conselho dele. Graças a um amigo, cheguei ao teu blog e são estou.

      Muito obrigado!

  4. Hemmingway teria cinco palavras para este sujeito: cut the crap, be simple.

  5. Ótimo post

  6. São ótimos conselhos. Mas, como todo conselho, não se deve seguir à risca. Eu, pessoalmente, encarei como uma tarefa de casa. Vou tentar fazer alguns textos dessa maneira e perceber o estilo. Depois adaptar. Temos que aprender sempre; do mesmo jeito que vi gente lidando como verdade absoluta, teve gente repudiando como lixo. Cadê o meio termo? Vamos trabalhar a nossa escrita. Aprender. Dicas assim são sempre valiosas.

    • É isso que eu penso, Marina. A gente precisa absorver as coisas e ver o que serve ou não pra gente antes de atirar pedras. Também vejo muito mais como um exercício que como uma regra absoluta.

      Abraços!

  7. Luciano Martins Costa

    16 de dezembro de 2015 at 21:19

    Natália, vamos comparar Chuck Palahniuk, de quem li apenas “Clube da Luta”, com Machado de Assis. Apenas num trecho de Quincas Borba: “CALCULOU que a costureira teria ido por ali. Ao longe, DESCOBRIU alguns vultos de um e de outro lado; um deles PARECEU-LHE de mulher. Há de ser ela, PENSOU; e picou passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoada; rua da Harmonia, costureira, uma dama e todas as rótulas abertas. Não admira que, FORA DE SI e andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, VENDO que a mulher também andava depressa”.
    De quem você acha que o mundo vai continuar lembrando daqui a 50, 100 anos?

    • Alessandro Correia

      27 de janeiro de 2016 at 01:17

      Realmente. Eu estava lendo o texto e pensando justamente no Machado de Assis. Claro que estamos falando de dois estilos diferentes e que cada um encontre o seu. Uma coisa são erros de principiante e neste ponto o texto é salutar. Mas fazer disso uma regra? Sei não. Como foi dito pela Marina: uma ótima tarefa de casa.

    • Exato, estamos falando de estilo. Cada escritor tem o seu. Existem tramas que requerem narrativas extremamente diretas. Outras, se permitem e vivem de circunlóquios e rebuscamento. Não é nem uma questão de como o autor vai decidir escrever, mas sim de como ele pretende ser lido pelo seu leitor. Imaginei, ao longo de todo o texto, um autor de techno-thriller, com milhões de exemplares vendidos, se perdendo em uma narrativa como a que Chuck sugere, ao mesmo tempo em que explica o funcionamento de um setor do serviço secreto russo.

  8. Achei muito válido o “conselho do Chuck Palahniuk”, estou me introduzindo no meio da escrita e o meu maior problema é o estilo. Até encontrar o meu estilo, caminho por entre a variada gama que vejo. ” […] eu acredito que, aplicando-a na nossa escrita, realmente pode nos ajudar a lapidar nosso estilo.”. Depois de ler os comentários, entendo que essa dia foi feita para mim. Então, meus mais profundos agradecimentos.

  9. E isso “eu *acredito* que, aplicando-a na nossa escrita, realmente pode nos ajudar a lapidar nosso estilo”?

    • antonio carlos salles

      12 de dezembro de 2015 at 01:01

      meu é o cumulo de abóbrinhas juntas nunca vi tantas!!

      • Eu não sabia que “abobrinha” era proparoxítona…

        • Alessandro Correia

          27 de janeiro de 2016 at 01:19

          Realmente. Eu estava lendo o texto e pensando justamente no Machado de Assis. Claro que estamos falando de dois estilos diferentes e que cada um encontre o seu. Uma coisa são erros de principiante e neste ponto o texto é salutar. Mas fazer disso uma regra? Sei não. Como foi dito pela Marina: uma ótima tarefa de casa.

  10. Eu concordo com a crítica dele, os trechos que ele citou são bem ruins, chega a parecer um disco riscado aos meus ouvidos, mas não é bem uma questão do verbo de ação nem da solidão e necessidade de ação, isso iria caracterizar literatura intimista como ruim, o que discordo profundamente, mas sim por não dar lacunas pro leitor inferir e pela falta de profundidade mesmo.
    Uma autora que julgo por não deixar lacunas para inferência é a Jane Austen, por exemplo, ela descreve demais as personagens ao apresentá-las em vez de dar as características delas por meio da própria narrativa e deixar pra gente inferir.
    Ah, peguei um trecho do ~meu livro~ que eu tava analisando sob essa perspectiva e ele tem vários verbos de pensamento e a personagem está constantemente sozinha, no entanto não me parece ser atalho nem sem ação, ó:

    “Foi pensando nisso, no universo, multi-universos, as pequenas réplicas de universos do corpo humano às folhas das árvores, que lembrou dos dias em que ficou fazendo obcecadamente toalhinhas de crochê. Nesses dias estava trancada num quarto escuro dentro de si, surda para a canção das engrenagens. Mas na toalhinha cada nó se ligava e formava base para novas formas de um círculo que se ampliava em formatos geométricos diferentes, como nas mandalas.”

    Não que seja uau, um primor da literatura, mas não me soa vazio e atalho como as frases citadas, apesar de incluir solidão, pensamento e lembrança.

  11. Um escritor tem o direito de escrever com liberdade. É óbvio que existem as regras de escrita (gramática, gêneros textuais, figuras de linguagem, a linguística e suas ramificações, como a semântica e pragmática, a análise do discurso, etc.). O escritor português José Saramago é um dos escritores pós-modernos que mais me encantam. No Brasil, apesar de sua origem ucraniana, meu “xodó” é Clarice Lispector. Saramago disse certa vez numa entrevista que não se encaixa em nenhuma escola ou estilo literário; revelou sua liberdade para escrever seja transportando-se para o período Barroco, como fez em MEMORIAL DO CONVENTO, ou em O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, num estilo completamente diferente. Clarice era “oblíquoa” por natureza e nem sabia que o era (ela acabou aceitando o adjetivo dos críticos de sua época de tanto que cansou de ouvi-lo); ela nunca esmiuçou seus textos para encantar seus leitores. Eu leio no mínimo duas vezes cada livro de Lispector, e, a cada leitura, descubro um novo entendimento. Essa é a magia que um escritor precisa passar: despertar o leitor no sentido de fazer com que ele aguce seus sentidos e force-os a compreender as intenções do autor. Eu escrevo contos, crônicas, poemas e mini-romances em capítulos (contos longos), exatamente por não querer tornar os meus textos prolixos. Eu poderia transformar um dos meus contos longos num romance com páginas a perder de vista, porém, gosto do texto enxuto, com começo, meio e fim. Um texto muito longo só se torna interessante se o mesmo for dinâmico do começo ao fim. Um grande exemplo de texto longo e dinâmico, na minha opinião, é TERRA SONÂMBULA, do escritor africano Mia Couto (muito prazeroso de ler).

    Éd Brambilla

    http://www.edbrambilla.blogspot.com

  12. Então, a dica é realmente boa. Faz todo o sentido, afinal estamos falando de livros. E nestes não há referência visual para os leitores. Faz sentido e vale a pena praticar e tentar seguir. Mas a questão é a seguinte: depois de ler este texto eu me peguei curioso com autores que por ventura tivessem o costume “preguiçoso” de usar todos os verbos, de usar estes “atalhos” para descrever suas cenas. E eu procurei em vários; J.K. Rowling, George RR Martin, JRR Tolkien, Stephen King, HP Lovecraft e alguns outros mais. Todos eles usam estas “artimanhas” para escrever. Então acho que no fim das contas isso é mais como uma nova forma que podemos testar e não como uma regra propriamente dita.

  13. Refletindo um pouco mais sobre o texto, identifiquei que a técnica do “desmembramento” das ações, como exemplificado pelo autor, serve bastante para as histórias que já nascem prontas para as adaptações cinematográficas, outra vertente literária que não desperta meu interesse. São páginas e mais páginas de descrições que facilitam e muito a vida dos roteiristas, afinal interpretar afirmações abstratas dos escritores que “contam” ao invés de “mostrarem” pensamentos e desejos de suas personagens. Existem situações em que a prolixidade é instigante num livro, mas quando ela é requisitada para toda e qualquer passagem corriqueira a leitura se torna vazia a meu ver.

    • …afinal transpor afirmações abstratas dos escritores que “contam” ao invés de “mostrarem” pensamentos e desejos de suas personagens é trabalhoso, exige interpretação.

  14. Glênio Guimarães

    10 de dezembro de 2015 at 11:25

    Apesar de algumas pessoas não terem esperado os seis segundos de ódio passarem pra então dizer o quanto é um conselho ruim, prefiro acreditar que é mais uma dica pra tentar fugir dos vícios, da preguiça e até mesmo da armadilha egóica do “mas meu estilo é assim, não vou mudar porque o Palahniuk disse”.

    Independentemente de estilo – que não será afetado por uma dica – parece que fugir do atalho é sempre válido, mesmo que seja pra chegar até onde o atalho levaria, mas com o exercício de experimentar o caminho que não é o mais fácil, e com a convicção de que se saiu da zona de conforto.

    Se isso vai me tornar melhor, mais lido, mais artista, não vem ao caso. A mim, me importa mais amar la trama más que el desenlace.

    Há braços, gente.

  15. Não concordo quando você diz que não se pode deixar o personagem sozinho. Eu estou escrevendo um drama e, na história, por muitas vezes, o personagem principal se encontra sozinho em seu quarto tendo um diálogo consigo mesmo. Essas cenas evidenciam todos os medos, angústias, ressentimentos, esperanças e desejos futuros do personagem. É através dessas cenas em que ele está sozinho que o texto mostra todas as características do personagem. E são utilizados infinitos verbos de pensamento e sentimento! Por acaso não se pode fazer isso? Bom, se a história se resume ao dramas do personagem e isso não pode ser feito, então não existe história.

  16. Bom senso e moderação! Particularmente adoro quando o autor desenvolve o pensamento dos personagens, destrincha-os, até porque pensar não é tão preto-no-braco, é incoerente por vezes. Faz sentido transpor isso para a escrita. Torna os personagens mais interessantes. Por outro lado, usar essa técnica para ações banais desses personagens, para “desmembrar” o que nem é fundamental para a história, como no exemplo do “atraso”, acho enfadonho, irritante. Por isso não tenho paciência (e não preguiça!) para “livros-calhamaço” que não raro se utilizam desse artifício de maneira compulsiva. Bom senso e moderação!

    • Isso mesmo, bom senso e moderação é o caminho. Ser radical pode ajudar a disciplinar quanto à um mal hábito mas pode também em si se tornar um mal hábito se levado como número áureo. Cada história pede algo, umas mais descrição de personagem e cenas, outras de ações, outras de pensamentos inclusive, e isso não só como característica de uma história em seu todo mas também para momentos e personagens. Você pode fazer o leitor entender o personagem pelos verbos que usa ao citá-lo, etc, mesmo que estes sejam de pensamentos se preciso. Geralmente regras tentam solucionar problemas mas podem, se levadas sem este bom senso, criar outro vício e interferir justamente no estilo do autor.

  17. OMG, que dica maravilhosa! É algo bem simples de entender e extremamente útil.

  18. O texto esbarra na forma com a qual o autor ou autores querem escrever.Mas, no meu caso este artigo não se aplica totalmente..Escrevo geralmente em primeira pessoa, então dizer que a pessoa esquentou algo ou destrinchar alguma frase me parece irreal…Eu escrevo sobre meus pesadelos, sobre o que vejo e sinto então se eu escrever sem “verbos de pensamentos”, eu iria enrolar algo que não precisa ser enrolado, preciso da ação contrastada com a emoção e não enrolação!!

    • Não acho que seria enrolação Lucas, e sim dar mais detalhes do que você mesmo está pensando e sentindo.
      pleo menos no meu caso quando eu penso “tô com fome”, não é só isso que vem na minha mente, ela viaja em mil comidas e lugares diferentes que podiam matar essa fome, aí me vem a preguiça ou a pressa pra me ajudar a decidir se eu faço ou compro pronta, e por aí vai indo a mente. Então usar a dica dele seria não entregar de mão beijada o que eu sinto e penso no momento e sim fazer o leitor ir atrás e descobrir.

      • Na verdade,Felipe, eu realmente não posso enrolar, meus sonhos ou pesadelos, são quase que reais…Eu quero mostrar o que vi e senti, sem ter que dar voltas… O “drama” de noites que não durmo, os pensamentos que se encontram em pesadelos quase reais…Então eu simplesmente escrevo o que senti, o que vi, o que toquei e por ai vai…Como escreverei mais de um pesadelo…Prefiro mostrar logo o meus sentidos,os meus toques, o que eu ouvi…Com clareza e da mesma forma arrepiante ou intrigante que eu presenciei.É desta forma que escrevo!!

  19. Minha dica é: tenha seu estilo. Escreva como você gosta de escrever. Sua escrita é reflexo de você, de sua personalidade, de sua multiplicidade. Não faça adaptações pensando no que vai fazer sucesso ou do que as pessoas vão gostar.

    • Concordo plenamente! Cada autor tem seu estilo e cada cena de um livro, cada história pede descrições e ações diferentes. Essa maneira de escrita prolongada não se aplica a todos.

  20. Esse é um dos grandes problemas do cinema brasileiro. O teórico dos roteiros Robert Mckee brinca dizendo que nosso cinema é sempre “on the nose”, deixando uma margem ínfima para a imaginação do espectador. Ele intui que isso viria da nossa tradição em novelas pra TV, onde todo mundo diz tudo o que pensa, o tempo todo. O Chuck Palahniuk é incrível mas não precisa ser nenhum gênio pra saber disso, basta tratar o espectador como um ser pensante.

  21. SENSACIONAL.

  22. Para mim, esse é um conselho bastante furado. É claro que você ilustrar suas afirmações é fundamental, mas tornar o texto prolixo e chato? É sobre isso que parece ser o artigo. Sabe aquelas pessoas que vão contar que foram em um show e você está louco para saber como foi o show e em vez de a pessoa falar do que realmente importa fica dando detalhes pelos quais ninguém se interessa até chegar no bendito show? Isso é insuportável e não é o que eu quero com a minha escrita, Deus me livre! Essa passagem do ônibus me deu tédio, sinceramente. Eu detestaria ler algo assim. Ia começar a me distrair ou querer pular para “os finalmentes”. Enfim, acho que podemos ter opiniões, mas não devemos impor o que fazer com a arte. Arte é o que você expressa, como você se expressa e cada um tem seu jeito próprio de fazer isso, não há moldes. Imagina colocar um molde na Virginia Woolf. Ela ia deixar de ser a genial e única Virginia Woolf com seus textos esquizofrênicos. Escrever é uma arte e a principal característica da arte é a criação, a expressão do seu ser, não é?

    P.S: Na minha opinião, o que é insuportável e me faz torcer o nariz é ler que o cadeado estava quente das nadegas de alguém. Desnecessário.

    • Realmente Alinne, esse desmembramento proposto também só me faz perder o interesse pela leitura. Não tenho paciência para descrições compridas demais, que enrolam, enrolam, mas nunca dizem o que é para ser dito. A cena da xícara no microondas é um exemplo clássico. Ficou tão extensa e prolixa, que no final, o leitor se perde, sem ao menos entender o que é que a cena quer dizer.

    • A questão é: todo mundo deve escrever da mesma forma? O autor iniciante deve se preocupar mais com a forma como escreve ou com o que ele escreve: a história? Existem histórias e histórias. Em algumas, o estilo prolixo cabe muito bem. Com isso o livro ganha 300 páginas e o leitor se delicia exatamente com os circunlóquios e o rebuscamento da escrita. Mas isso se encaixa em todas as histórias? Se encaixa em todos os projetos de trabalho de cada autor estreante?

  23. Excelente. Ele exemplificou bem o ‘Show, Don’t Tell’ que outros escritores consagrados, cineastas e dramaturgos utilizam para enriquecer as obras.

  24. Adorei as dicas. Não sou escritora, sou diretora de arte e tenho a ousadia de ter um portal feminino e escrever o que dá na telha, no geral são textos informativos e nada que seja escrita criativa, mas como sou curiosa, parei por aqui e curti. Nunca pensaria em escrever desta forma, vou tentar!

  25. Ótimo artigo, com dicas valiosas, mas, com todo o respeito, devo ouvir as dúvidas que se formaram na minha mente e questionar se esse desmembramento deve ser aplicado com tanta regularidade. Acho que a escrita de um livro depende muito do que o autor quer passar. Depende de qual é o sentimento e a emoção que ele quer transmitir com determinada cena, fala ou ação de seus personagens. É claro que atalhos “tiram” um pouco da graça, mas fazer desmembramentos em todos os momentos do livro pode deixar a obra extensa demais e até mesmo acabar com o dinamismo que é tão necessário em cenas de ação, por exemplo. Acho que o correto a se fazer é buscar um equilíbrio entre os verbos de pensamento e os desmembramentos que foram propostos nesse artigo, para que se tenha uma obra rica em detalhes e que, ao mesmo tempo, possua uma dinâmica capaz de conquistar o leitor do começo ao fim.

  26. Gostei tanto que guardei o texto para reler. Muito bom. Abraços!

  27. Hey, fazia muito tempo que eu não aparecia aqui, vi no face esse post e acabei lendo vários outros, aproveito esse comentário para dizer que como da primeira vez que visitei o blog me surpreendi positivamente com o conteúdo … Sobre esse post especificamente, adorei as dicas, como alguém como comentou, talvez não sirva para todo tipo de escrita, as vezes e faz necessário o uso destes verbos, mas fiquei “escrevendo” em minha mente da forma como ele aconselha e me diverti bastante haha :*

  28. Ótimo artigo. Fico feliz em saber que, inconscientemente, já andava tentando apagar este hábito. Melhorarei infinitamente (tá, nem tanto) depois destas observações.

    Obrigado a todos e continuem com o ótimo trabalho.

  29. Belo artigo, e obrigado pela dica, porém me doeu na parte do verbo ser e estar, e quanto a sair da cabeça dos personagens eu não saberia o que fazer por que eles não saem da minha cabeça, já sobre mantê-los sozinhos ou não acompanhados fico na dúvida por que na maioria das vezes estão juntos de alguém apenas no meu imaginário, acabo sempre admitindo meu alter-ego ao leitor a possibilidade de estar dando um depoimento solitário, assim, eu confesso, e admito, não há relação senão de si para consigo, ninguém está ou será porque ninguém fora verbo ainda, por enquanto meus personagens são todos sujeitos preocupados com os seus predicados e o objeto quer sempre ser mais na sintaxe morfológica de seus atos. concluindo, vou concordar sobre a preguiça, em literatura todo diálogo é falso, pois é o leitor que dá a esperança de que um dia algum diálogo verdadeiramente exista, e trazer o leitor para a descoberta do texto é que faz a literatura ser uma obra coletiva.

  30. Ótima dica! Gostei, sou escritora iniciante e vou lançar um livro de ficção científica neste final de ano. Mudei muita coisa, mas ainda preciso me refinar mais.

    • Olá!

      Adoro ficção científica, por favor me envie o nome para que eu possa adquirí-lo.

      Abraço.

    • Muito Obrigado pelo artigo.

      Ótima dica!!! e mais uma “ferramenta” a ser utilizada nesse processo tão difícil que é lapidar um bom texto para bons leitores.

      mais uma vez, Obrigado.

  31. Com todo o respeito à autora, creio que estas dicas se apliquem melhor à língua inglesa. A narrativa com frases longas e orações sobrepostas e intercaladas com explicações separadas por travessão simplesmente não combina com a narrativa típica da língua portuguesa. Além disso, a tradução tem jeito de transliteração — dá aquela sensação de estarmos lendo um texto traduzido.

    Algumas dicas são boas sim, mas é preciso muito cuidado para não tornar o texto prolixo e confuso. O parágrafo das “manhãs que se seguiam às noites em que fulano chegava tão tarde e fulana fingia dormir naquelas manhãs e ela colocava uma só xícara no microondas” é um bom exemplo, pois confundiu a tradução após a explicação entre travessões.

    • Acho que o travessão é o de menos na confusão desse parágrafo que você mencionou, que é puro caos.

      Provavelmente deveria ser algo como “As manhãs depois das vezes em que Kenny não tinha voltado a tempo de pegar o último ônibus, quando tinha tido que pegar uma carona ou pagar um táxi para chegar em casa, ele encontrava Mônica fingindo dormir (porque ela nunca dormia tão tranquilamente), eram as manhãs nas quais ela sempre colocava apenas a xícara de café dela no microondas. Nunca a dele.”

      Mas, de qualquer forma, são frases grandes demais para o Português. Ideal seria partí-la, porque não fazem muito sentido assim, fica só confuso e tira o leitor da história. O que é só um dos motivos pelo qual essa dica funciona bem mal em português.

  32. genial essa dica. explica um pouco sobre alguma predileção que tenho por algumas obras. mas o atalho quando usado como meta ferramenta nem deixa esse traço de criatividade rasa do autor.

  33. Não dá pra levar nenhuma dessas dicas literárias a ferro e a fogo, de fato o simples contar acaba empobrecendo um pouco a narrativa, entretanto recorrer a este recurso o tempo todo pode deixar a obra muito extensa e enrolativa, especialmente em tramas mais diretas, como livros de investigação policial.

  34. Dicas interessantes, mas não valem para todo tipo de literatura e intenções do autor. Inclusive sobre narrativas e como caracterizar as falas de um personagem.

  35. Concordo que como exercício as sugestões do texto são muito válidas e interessantes. Mas acho que ser categórico demais quanto a técnicas de escrita é sempre um excesso. Entendo o conceito de “mostrar” em vez de “contar”. Mas “me pergunto” (para desespero do autor, rs) se não é muito mais uma questão de equilibrar esses dois elementos com a sensível coerência (nada fácil de conseguir, concordo) do que eliminar sumariamente do texto todos os momentos do “contar”, que podem ser percebidos pelo leitor como momentos deliciosos se vierem como ferramenta de valorização do “mostrar”, dando mais dinâmica ao texto entre um momento e outro.

  36. É a primeira vez que vou comentar uma postagem que aborda esse assunto, já li muitos conselhos e dicas para melhora da escrita, mas essa postagem até hoje foi a mais útil e concisa.
    Obrigada e parabéns!

  37. O texto é interessante, mas segundo artigo publicado sobre um estudo feito em best-sellers destaca o uso de verbos de pensamento como uma qualidade marcante nas obras de sucesso.
    http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/04/algoritmo-desvenda-o-segredo-dos-best-sellers.html

  38. A velha e boa arte de encher lingüiça! Haha

  39. Que blog absolutamente LEGAL!! Parabéns, Natália! Dicas interessantíssimas. Já te acompanhava no 360, agora vou marcar presença aqui também.
    Beijo

    • hehe Obrigada Raquel! Fico feliz que tenha gostado. Não estou conseguindo postar tanto quanto tinha planejado, mas tenho gostado de ter um espaço para falar de outras coisas tbm.

      Abraços e volte sempre!

  40. Ele tem razão: nos primeiros 6 segundos você o odeia. Estou nesses 6 segundos. Não sei se é por me conscientizar de que costumo usar esses verbos, ou se é porque não concordo inteiramente com o conselho. Quando quero passar uma ideia, escrevo do jeito que melhor comunica a tal ideia. Se, de vez em quando, tenho que contrariar alguma regra gramatical em nome da naturalidade do diálogo, contrario sem nenhum remorso. Então fico em dúvida se é um caso de escrita preguiçosa ou de escrita objetiva o uso dos tais verbos de pensamento. Bem, quem sabe daqui a 6 meses eu esteja amando as dicas… rsrsrs….

    • Acho que a proposta de eliminar totalmente é um exercício. Depois que nos acostumamos a seguir essa regra, acho que podemos voltar a usá-los, mas vamos ter aprendido que há outras formas de demonstrar sentimentos e emoções, o que vai diversificar nosso repertório. Também penso que, às vezes, usamos esses verbos de forma meio automática e essa dica nos leva a refletir sobre isso. Enfim, é um exercício interessante. Realmente achei que em todos os exemplos citados, a forma “desmembrada” ficou bem melhor 😉

      Abraços e obrigada por comentar!

  41. Sensacional! Melhor dica que já li! Valeu demais, Naty!

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