A Rebelião das Horas

Nas prateleiras da velha loja empoeirada do centro, já não havia mais espaço para nenhuma outra engrenagem, ampulheta ou cuco que fosse. As peças, acumuladas durante as décadas e décadas que se passaram desde que os Zeitnehmer começaram a se dedicar à arte de consertar relógios, formavam uma coleção inusitada que passava por diferentes estilos de época e utilidades. Justo ao lado de um imponente relógio de parede ao qual faltavam os ponteiros, era possível encontrar um tedioso relógio de ponto que algum dia atormentou trabalhadores em uma fábrica qualquer. Hoje, eles serviam apenas para acumular poeira, aposentados da exaustante tarefa de tiquetaquear junto ao tempo.

Magno Zeitnehmer herdou a loja de seu pai, que a herdou de seu avô. Tivesse ele filhos, passaria o oficio adiante, mas a vida não lhe deu essa sorte e, agora, ele se via obrigado a fechar o pequeno atelier em breve. Suas mãos trêmulas já não eram capazes da mesma precisão no consertos mais delicados, sua vista falhava em enxergar as peças menores e os clientes eram cada vez mais raros. Não era incomum que se passassem dias e dias sem que a sineta da porta de entrada soasse trazendo um trabalho novo. Só havia resistido até ali porque, é verdade, era o único que ainda fazia esse tipo de reparo em relógios antigos em toda São Paulo.

A culpa da decadência da loja dos Zeitnehmer, pensava Magno, era dos digitais. Depois que os displays de cristal líquido começaram a aparecer no mercado, o charme dos ponteiros foi caindo em esquecimento e se enterrando mais e mais a cada nova tecnologia. Mas eles nunca teriam o mesmo encantamento dos analógicos, costumava dizer, sempre que alguém lhe perguntava sobre seu fascínio por seu trabalho. É uma arte muito delicada, essa de colocar as engrenagens para rodar em perfeita sintonia com os segundos. Exige perícia, concentração. Exige perder-­se em um lapso onde o tempo não existe até que aquele relógio possa voltar a contá­-lo e você se situe novamente no rumo das horas. Pensava nisso quando a porta se abriu ruidosa naquele fim de tarde, disparando a sineta. O tempo que passara trabalhando na penumbra o fez franzir o cenho para a claridade que veio de fora. Como era de hábito, ele se esquecera por completo do passar dos minutos enquanto restaurava um belo relógio desses que costumavam ser pendurados em estações rodoviárias nos anos 1920. A luz tornou ainda mais visíveis as partículas de poeira suspensas no interior do recinto.

Um homem atravessou o curto espaço até o balcão e colocou um embrulho sobre ele sem dizer nada. “Que tipo curioso”, pensou Magno ao desejar­lhe boa tarde. Era o tipo de cliente que costumava visitar a loja quando ele era menino e ia ajudar seu pai nas tarefas. Vestia um paletó negro desbotado e usava um chapéu no mesmo tom. Seria elegante, não fosse tão antiquado.

Sem encará­-lo, Magno pegou o embrulho e retirou o papel pardo que cobria o objeto. Era um relógio de mesa de procedência oriental. Coreano, ele se arriscava a dizer, e muito antigo. Seus seis ponteiros estavam parados sobre símbolos que Magno não reconhecia. Esfregou o dedão na base de porcelana para retirar uma mancha e ver melhor os caracteres desenhados ali.

– Não tenho muito tempo. Acha que pode dar um jeito nisso? – perguntou o homem.

O relojeiro retirou com cuidado a tampa que cobria a parte mecânica da peça com auxílio de uma chave de fenda. O relógio estava morto, as engrenagens delicadas carcomidas pela ferrugem.

– Vou precisar repor a maior parte das peças ­ disse, inclinando­-se sobre o objeto para ver melhor.  – Ele se lembrava de ter vista roldanas muito parecidas perto daquele exemplar suíço de ouro.

– Volto para buscá­-lo amanhã pela manhã. É um caso meio urgente. Preciso que esteja pronto o mais rápido possível. – Magno acenou com a cabeça e tirou uma folha de seu bloco de recibos.

– Vai te custar 150 reais -­ disse, anotando o valor no papel ­ – volte às nove, que é quando abro a loja ­-  e entregou o recibo ao senhor, encarando-­o pela primeira vez. Um leve tremor percorreu seu corpo. Havia algo muito estranho no rosto daquele cliente. Alguma característica não humana que Magno não conseguiu identificar muito bem durante os segundos em que seus olhos se cruzaram, e da qual se esqueceu logo depois.

Com um sinal de concordância, o homem deixou a oficina. Magno pensou que seria melhor se começasse a trabalhar naquela peça agora mesmo. Na verdade, estava empolgado por ter algum material novo em suas mãos e um trabalho bem pago. Trabalhou sem perceber por quanto tempo, até que o sol caísse completamente do lado de fora e desaparecesse por completo. Quando deu-­se por satisfeito, atarrachou a tampa no lugar outra vez e, com cuidado, deu corda no pequeno botão na parte traseira da peça. Os seis ponteiros começaram a se mover, cada um a seu ritmo.

Tic tac.

Em algum ponto de alguma das prateleiras que cobriam as paredes, o primeiro relógio soou doze badaladas. Magnus levantou os olhos assustado, tentando decidir de onde vinha o som. “Mas o que é isso? Essas porcarias estão quebradas há décadas”, pensou, enquanto saia de trás do balcão para procurar a fonte do distúrbio. No meio do caminho, mais badaladas surgiram em outro canto da oficina. Doze. Depois, vinte e quatro. Incontáveis badaladas irromperam de todos os lados da sala. Atordoado, o relojeiro tampou os ouvidos e permaneceu imóvel no meio da loja, sem saber o que fazer ou para onde ir. Fechou os olhos, como se isso o ajudasse a aguentar o ruido estridente que lhe rasgava os sentidos.

E então veio o silêncio profundo e imperturbável. Devagar, abriu os olhos e deixou os braços caírem ao lado do corpo. Estava rodeado por uma escuridão intensa, cercado de nada. Não havia mais vento, poeira ou o passar inesgotável dos segundos.

Naquele momento, Magno entendeu o que havia assombrado no homem. Eram seus olhos. Ou os dois buracos negros que tinha no lugar dos olhos e que, por dentro dos quais, era possível enxergar o infinito. Ele tinha sido capturado por uma brecha no tempo.

15 Comments

  1. Menina, você tem que continuar! Amei! Muito bom e não vejo a hora de ler e descobrir mais desse intrigante mistério.

  2. De tempos em tempos dou uma passada, garimpo algo e parto. Hoje parei por aqui, me enchi de sentidos, dessa narrativa leve e encaixada, cheia de taleto. Obrigada. Levarei como indicação no Leiturinhas Viajantes Liquidificadas da próxima semana. BjO!

  3. É, você é constantemente talentosa e inspirada.
    A paixão escorre pelas entrelinhas de tudo que você escreve.
    Parabéns de novo <3

  4. Continue o conto! Continue o conto!

  5. Gostei e voltarei! 😉

  6. Natália,
    “mexendo” no celular, saí caminhado.
    Aqui e ali, algo interessante. Encontrei seu texto. Minha cabeça agradece.
    Fez um bem danado.
    Depois da tal “certa idade” a gente fica impaciente: precisa de paixao imediata. Paixao desde os primeiros parágrafos.
    Vc conseguiu. Voltarei sempre.
    E vc continuará escrevendo, por supuesto. Abs. Maria.

    • Maria, fico muito feliz com o seu comentário. É que esse tipo de coisa me faz perder a insegurança com a escrita e seguir trabalhando nos meus objetivos. Obrigada por dedicar seu tempo a deixar suas impressões aqui.

      abraços!

  7. Excelente conto! Daqueles que vira livro fácil… dá vontade da gente procurar o segundo capítulo quando termina de ler…
    Você escreve muito bem, a leitura fica fluida, sem esforço… mal se percebe que se está lendo.

    Parabéns, Natália!

    • Ei Alexander, obrigada pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado. Eu sempre tenho medo de compartilhar as coisas que eu escrevo 🙂

      Abraços!

      • Poxa, não tenha medo de compartilhar… Você escreve muito bem… Esse conto, por exemplo, me remeteu àquelas super aventuras em mundos distantes (Nárnia, Bússola de Ouro, sempre quis – e ainda quero, rs – escrever algo assim), quando o momento inicial é sempre aquela apreensão gostosa do “caramba, e agora?”. Daria um excelente primeiro capítulo, daqueles que prendem o leitor na livraria e ele acaba levando o livro pra casa…
        Sei bem o que é essa insegurança de escritor, isso também me acompanha. Talvez por isso me sinta compelido a celebrar e parabenizar quando encontro alguém que esse dom que é tão lindo.
        Aguardarei pelos próximos textos.
        Abração.

        • Fico muito feliz em ler isso. Eu também tenho vontade de escrever uma aventura assim. Todas as ideias de história que tenho têm algo de fantástico! 🙂

          Abraços e obrigada por passar aqui!

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