A Caixa de ferramentas do escritor de Stephen King

Escrever é um ofício quase artesanal. E, para encadenar palavras uma atrás da outra e dar-las forma e significado é preciso não apenas prática e um pouquinho de talento, mas também algumas ferramentas essenciais do escritor. É isso que afirma Stephen King em seu manual disfarçado de auto-biografia (ou seria o contrário?) Sobre a Escrita.

Cada escritor possui uma caixa de ferramentas únicas e baseadas em suas experiências pessoais. Por isso é impossível que dois autores escrevam exatamente a mesma história. Se as suas ferramentas estão enferrujadas, sempre é possível polí-las e deixá-las prontas para o uso outras vez. Carregue-as consigo em cada trabalho. A caixa de ferramentas do escritor possui dois níveis. No primeiro, vão as palavras e a gramática, a matéria prima do oficio ou, como ele mesmo chama, os pregos e as porcas. No segundo nível, entram os elementos de estilo que ajudam a polir e decorar o trabalho.

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Caixa de ferramentas do escritor – Primeiro nível: a língua

Vocabulário

  • Não se esforce demais para aumentar seu vocabulário. Esse conhecimento se adquire de forma natural com leituras.
  • Não tente enfeitar demais o seu vocabulário.
  • Use palavras simples em vez de palavras complexas e obscuras.
  • Sempre opte pela primeira palavra que vier à mente.

O vocabulário é a ferramenta mais básica do escritor. Você deve se sentir confortável ao usá-la. A melhor forma de expandir seu vocabulário é através da leitura. É por isso que todo escritor é, antes de nada, um leitor. Se você não tem tempo para ler, você não tem tempo para ser um escritor. Prefira as palavras mais simples e cotidianas em vez de substituí-las por outras que podem parecer mais rebuscadas, porém provavelmente terão um significado um pouco diferente do que você queria passar. Sempre diga exatamente aquilo que você quer dizer e, para isso, escreva de forma sucinta e acessível.

Gramática

  • Uma sentença completa é formada por sujeito e predicado: um substantivo e um verbo.
  • Quando você utiliza um verbo ativo, o sujeito está fazendo algo. Quando você utiliza um verbo passivo, algo está sendo feito ao sujeito. Prefira a voz ativa sempre.
  • Use frases fragmentadas se elas ajudarem na narrativa. Não exagere.
  • Não quebre as regras da gramática a menos que você as entenda completamente.
  • Evite advérbios quando possível. Sempre evite advérbios nas atribuições dos diálogos.

Sentenças completas devem dominar o seu texto, porém parágrafos e parágrafos cheios delas podem tornar a narrativa rígida e pouco fluida, principalmente na ficção. Usar fragmentos pode ser útil para dar um toque de suspense e para variar no tamanho e estilo das frases. No entanto, o principal motivo porque você deve conhecer as regras antes de quebrá-las é que as regras devem ser seguidas na maior parte do tempo. Por isso não exagere com os fragmentos ou com qualquer outra transgressão. Há uma grande diferença entre um fragmento bem colocado e uma zona gramatical.

Para King, a voz passiva e os advérbios são recursos pobres de “escritores tímidos”. A voz passiva é “segura”, uma vez que não há ação alguma para lidar. O escritor não precisa lidar com o sujeito, apenas deixa a ação acontecer por si só. Advérbios, por outro lado, são recursos empregados por escritores que têm medo de que o leitor não entenda a mensagem ele está tentando passar. Tente criar a atmosfera e o estilo da ação descrita pelo advérbio com ocorrências prévias na cena. Confie na capacidade do seu leitor de capturar essa atmosfera.

O conselho de King sobre gramática é parecido ao conselho sobre vocabulário: escreva da forma como te vem naturalmente. Correção gramatical é fundamental, porém você deve ser apto a interiorizar as regras da sua língua de forma intuitiva através da leitura. Algumas estruturas, por mais que sejam corretas, devem ser evitadas caso não soem naturais ou espontâneas.

Ferramentas do escritor - Stephen King

Caixa de ferramentas do escritor – Segundo nível: estilo

Parágrafos

  • Parágrafos são o nível de organização do texto imediatamente superior às frases.
  • A estrutura básica de um parágrafo é de um assunto seguido por sua justificativa e descrição.
  • Parágrafos fornecem diálogo, descrição e a direção da cena.
  • Não estruture demais seus parágrafos, deixe que eles se formem por si mesmos.
  • Deixe o ritmo da cena decidir o tamanho dos seus parágrafos

Embora alguns tipos de texto exijam uma estruturação mais rígida dos parágrafos, como a dissertação, o fluxo da escrita de ficção deve ser mais solto. Tentar estruturar demais o formato dos parágrafos pode atrapalhar a criação. Parágrafos devem ser formatados de acordo com a atmosfera e o ritmo da cena. Por exemplo, um clímax pode pedir alguns parágrafos de uma frase para gerar o clima de suspense necessários. Da mesma forma, alguns livros podem incluir parágrafos que vão por páginas e páginas. Não há tamanho ideal.

Descrições

  • Descrições atraem o leitor para a história através dos sentidos.
  • Começam com a visualização do objeto a ser descrito.
  • Não descreva demasiado.
  • Não descreva pouco.
  • Encontre um meio termo entre o muito e o pouco.
  • Inclua todos os sentidos.
  • Não gaste muito tempo descrevendo os personagens.

Descrever demais pode entediar o leitor e enterrar suas imagens mentais. Descrever de menos pode deixá-los perdidos. Em geral, bastam alguns parágrafos curtos sem muitos adjetivos para descrever uma cena. Tente mexer com todos os sentidos do leitor para oferecer um panorama mais completo. Descrever um lugar também inclui os sons, o cheiro, a visão e talvez até o tato e o paladar.  Já a descrição de personagens deve contar com algumas poucas informações e detalhes bem escolhidos, aquelas que melhor os descrevem.

Diálogos

  • Diálogos dão voz aos personagens e definem suas personalidades.
  • Você pode mostrar coisas sobre o personagem apenas com suas falas, sem ter que dizê-las explicitamente
  • A chave para um bom diálogo é a honestidade
  • Preste atenção nas interações entre pessoas reais para melhorar suas habilidades de escrever conversas.
  • Permaneça fiel às características de seus personagens durante os diálogos.

Você deve buscar retratar as experiências e características de seus personagens ao escrever um diálogo. Se você for muito rígido, seu personagem soará robótico ou clichê. Não tenha medo de criar suas próprias palavras ou de usar palavrões se for o caso, não evite essas coisas apenas para agradar a audiência. Seja fiel ao personagem que criou.

Tema

  • O tema é uma mensagem recorrente presente na história.
  • Pode ser expresso através dos personagens, símbolos ou da história em si.
  • Não comece a escrever um trabalho baseando-se somente no tema.
  • Deixe o tema se desenvolver sozinho durante o primeiro rascunho.
  • Torne-o mais presente na história durante as versões posteriores.

Não se preocupe demais em descobrir sobre o que é a sua história. Embora símbolos e arquétipos saltem das páginas de tempos em tempos, sua preocupação maior deve ser com a narrativa. Após o primeiro rascunho, busque os padrões e assuntos e procure descobrir o que a história conta a você e às pessoas em geral. Só então procure trazer o tema mais à luz.

Como aprimorar sua caixa de ferramentas

  • Leia o máximo possível
  • Tenha uma meta de palavras a serem escritas por dia e mantenha-se fiel a ela
  • Escreva a portas fechadas
  • Escreva sobre o que você conhece
  • Acredite na sua intuição e não desanime
  • Seja sempre sincero

Fontes de pesquisa: Memoir of the craft e Stephen King’s Tool Box

1 Comment

  1. Excelente dicas!

    “Advérbios, por outro lado, são recursos empregados por escritores que têm medo de que o leitor não entenda a mensagem ele está tentando passar. Tente criar a atmosfera e o estilo da ação descrita pelo advérbio com ocorrências prévias na cena. Confie na capacidade do seu leitor de capturar essa atmosfera.” – Adorei essa em especial, porque me identifiquei na hora… rs…

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