Category: Meus Textos

2017, que tal? Planos, resoluções e uma promessa

Eu gosto de pensar os últimos 18 meses da minha vida como um semi-sabático. É um sabático generoso, eu sei. Mas por outro lado é apenas semi, porque eu nunca parei de trabalhar, nem por um momento. Reduzi o ritmo, isso sim, e muito. Usei o tempo que sobrou para tamborilar pela vida.

Quando eu criei o Comma, lá em 2015, eu passava por um momento crítico da minha vida. Eu tinha 27 anos e tinha conseguido. Eu tinha alcançado justo aquilo que eu queria alcançar com o 360meridianos, o objetivo pelo qual eu havia trabalhado nos três últimos anos. E isso me fez feliz por muito tempo, mas o combustível que me move é feito de metas e horizontes e eu logo comecei a me perguntar “E agora, qual é o próximo Everest a escalar?”. A resposta vinha em branco.

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A Rebelião das Horas

Nas prateleiras da velha loja empoeirada do centro, já não havia mais espaço para nenhuma outra engrenagem, ampulheta ou cuco que fosse. As peças, acumuladas durante as décadas e décadas que se passaram desde que os Zeitnehmer começaram a se dedicar à arte de consertar relógios, formavam uma coleção inusitada que passava por diferentes estilos de época e utilidades. Justo ao lado de um imponente relógio de parede ao qual faltavam os ponteiros, era possível encontrar um tedioso relógio de ponto que algum dia atormentou trabalhadores em uma fábrica qualquer. Hoje, eles serviam apenas para acumular poeira, aposentados da exaustante tarefa de tiquetaquear junto ao tempo.

Magno Zeitnehmer herdou a loja de seu pai, que a herdou de seu avô. Tivesse ele filhos, passaria o oficio adiante, mas a vida não lhe deu essa sorte e, agora, ele se via obrigado a fechar o pequeno atelier em breve. Suas mãos trêmulas já não eram capazes da mesma precisão no consertos mais delicados, sua vista falhava em enxergar as peças menores e os clientes eram cada vez mais raros. Não era incomum que se passassem dias e dias sem que a sineta da porta de entrada soasse trazendo um trabalho novo. Só havia resistido até ali porque, é verdade, era o único que ainda fazia esse tipo de reparo em relógios antigos em toda São Paulo.

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Compulsão obsessiva por cadernos

Eu tenho mania de comprar cadernos. Não sei quando eu percebi isso pela primeira vez, talvez tenha sido em um daqueles vários momentos em que paro entre as estantes de alguma papelaria e sento a textura de uma página em branco nas pontas dos dedos, implorando para ser preenchida com ideias.

Cadernos novos são amuletos de recomeço. As páginas em branco são opções em aberto. São a estrada nova que a gente acabou de pegar e ainda não sabe o que vai encontrar lá frente. São caminhos cheios de possibilidades inexploradas, que serão desvendadas conforme as letras que a gente colocar nelas. É por isso que eu amo os cadernos.

Se eu pudesse, eu começava um toda semana. Seria maravilhoso começar as segunda-feiras tendo tanta folha para completar. Como não posso, invento desculpas para justificar os reais gastos nas papelarias. Um projeto, uma nova fase, a hora de começar um diário, diferentes funções para diferentes bloquinhos. E é óbvio que eu acabo com uma coleção imensa porque é impossível preenchê-los na velocidade em que eu os compro.

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Qual foi a primeira vez que você se apaixonou por uma história?

Todos os anos, no meu aniversário, eu tinha uma difícil decisão a tomar. Era um acordo comum na minha família que, ou se comemorava com uma festa, ou com um presente a nossa escolha. As festas eram sempre no salão do prédio da minha avó paterna e decoradas com meus personagens favoritos. Os brigadeiros, as lembrancinhas, os amigos da escola e a quantidade de convidados que chegavam, cada um com seus embrulhos, me faziam acreditar que, quase sempre, essa era a escolha mais inteligente.

No primeiro ano depois que eu aprendi a ler, no entanto, eu escolhi o presente. O motivo que me fez trocar todos os pacotes que eu ganharia na festa por um único foi uma coleção de livros infantis que eu vi na TV. Chamava-se Conte Outra Vez e era composta por 12 volumes, cada um com duas histórias lindamente ilustradas. Cada livro vinha acompanhado de uma fita cassete com a narração dos contos. Os volumes chegavam por correio, um por mês, o que significava que levaria um ano até que meu presente estivesse completo.  Lembro-me até hoje da música de abertura:

“Era uma vez, outra história assim vai começar

E todos vocês, neste mundo encantado vão sonhar

É só escutar com atenção e viajar na asa da imaginação

Que a alegria vai tomar seu coração…”

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Ninguém dá a mínima pra Oxford Comma

Esse não era bem o título que eu estava procurando. Ter um blog já é uma evidência incontestável de narcisismo e a minha ideia era elevar isso a algumas potências. Já não bastassem as selfies e uma página inteira dedicada a apresentar a “autora”, meu nome ainda deveria ficar bem à mostra, em letras garrafais pairando acima de todo o resto. Mas nenhum esforço de criatividade foi suficiente para criar alguma coisa legal, inteligente e descolada que combinasse com Natália.

Natália. Que nome desajeitado! No dicionário de rimas, quase todas as palavras remetiam a alguma enfermidade ou termos de botânica. Anomalia, glossolalia, acefalia. Ainda bem que eu não inventei de namorar um poeta.

Não sei bem em que ponto da pesquisa eu fui tragada pelo buraco negro da Wikipedia e acabei em um verbete sobre regras de pontuação em inglês. E lá estava: Oxford Comma, uma mera vírgula que é capaz de levantar debates calorosos entre alguns dos maiores escritores, editores e acadêmicos do mundo. Uma controversia linguística. Pareceu apropriado.

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