Em 2014, eu decidi que leria um livro por semana. Para cumprir o objetivo, acabei  incluindo umas porcarias na lista. Ainda assim, falhei. Cheguei ao final do ano com 50 livros lidos porque, nas últimas semanas, eu simplesmente deixei tudo pra lá. Considerei, no entanto, a experiência um grande sucesso e resolvi que a adotaria para a vida.

Só que os dois anos seguintes foram completamente loucos. Mudei de país duas vezes. De casa, sete. Me apaixonei duas vezes e tive uma bela dor de cotovelo em uma delas. Fiz uma pós e aprendi outra língua. A velocidade da vida não acompanhava o ritmo de leitura e vi meu objetivo dos 52 livros ser reduzido em dezenas. Mas, tudo bem, não fosse a culpa. Eu me sentia culpada por não dar conta do meu próprio desafio. Um desafio que eu inventei pra mim porque, vejam só, ler é algo que me faz feliz.

Demorou um tempo até perceber que eu tinha transformado a leitura em uma obrigação profissional. Virou mais um item na minha já abarrotada lista de tarefas. E como qualquer item nessa já abarrotada lista de tarefas, ganhou uma enorme tendência a ser procrastinada. Nos momentos em que eu me permitia ficar à toa de pernas por ar, preferia fazer algo que não fosse um quadradinho a ser riscado no bullet-journal e foi assim que eu maratonei pelo menos umas 700 temporadas de série na Netflix nos últimos anos.

Outro dia, eu trombei com uma entrevista que o Guilhermo del Toro deu em 2010 e que alguém resolveu ressuscitar no Twitter. Ele dizia que não levava para-casa para a vida. “Se (um livro ou videogame) não me fisga, eu simplesmente deixo pra lá”, disse ele. E, não é que ele está certo? A gente tem que parar de lançar aquele olhar de vergonha pro livro que a gente abandonou na estante. De se torturar por 50 minutos em episódios de série que já perderam o fio da meada há tempos. De achar que largar uma coisa, qualquer coisa, na metade, é uma forma dolorosa de fracasso. Começou, não tem que acabar, não senhor.  A vida é cheia de histórias inacabadas, de assuntos incompletos e enredos que foram cancelados sem conclusão.

A gente não tem que. Não tem que ler esse ou aquele livro, nem gostar de determinado autor, nem ter uma meta de leitura. Mas isso, na verdade, vale pra qualquer coisa que a gente faz para sentir-nos bem. Vale pra cozinha, pro violão, pra escrita, pro pole dance.

Tudo bem passar o domingo lendo aquele bestseller adolescente com enredo meio bobo ou escrever um texto que você não vai ter coragem de mostrar pra ninguém. E tudo bem também ser a mais descoordenada daquela aula de dança ou que as aquelas fotos que você tirou talvez não sejam dignas de uma exposição.  A única coisa que a gente tem que é parar de inventar obrigação pra gente mesmo. Tem mais é que parar de levar para-casa para a vida.

A gente não precisa ser bom no que gosta