Nas prateleiras da velha loja empoeirada do centro, já não havia mais espaço para nenhuma outra engrenagem, ampulheta ou cuco que fosse. As peças, acumuladas durante as décadas e décadas que se passaram desde que os Zeitnehmer começaram a se dedicar à arte de consertar relógios, formavam uma coleção inusitada que passava por diferentes estilos de época e utilidades. Justo ao lado de um imponente relógio de parede ao qual faltavam os ponteiros, era possível encontrar um tedioso relógio de ponto que algum dia atormentou trabalhadores em uma fábrica qualquer. Hoje, eles serviam apenas para acumular poeira, aposentados da exaustante tarefa de tiquetaquear junto ao tempo.

Magno Zeitnehmer herdou a loja de seu pai, que a herdou de seu avô. Tivesse ele filhos, passaria o oficio adiante, mas a vida não lhe deu essa sorte e, agora, ele se via obrigado a fechar o pequeno atelier em breve. Suas mãos trêmulas já não eram capazes da mesma precisão no consertos mais delicados, sua vista falhava em enxergar as peças menores e os clientes eram cada vez mais raros. Não era incomum que se passassem dias e dias sem que a sineta da porta de entrada soasse trazendo um trabalho novo. Só havia resistido até ali porque, é verdade, era o único que ainda fazia esse tipo de reparo em relógios antigos em toda São Paulo.

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